11/09/2018

Dificuldades psicológicas na infância

A infância é a fase da vida em que a saúde é a maior das preocupações.

Crianças nem sempre sabem expressar o desconforto que estão sentindo, além disso, é na infância que a maioria dos transtornos físicos e as doenças em geral costumam apresentar seus primeiros sintomas.

Nem sempre seu filho(a) vai se comportar como você deseja e é comum sentir medos, ficar irritado ou ter problemas com um amiguinho na escola.

É importante que você fique atento para perceber quando esses problemas do cotidiano se tornam algo mais grave e que necessita de um acompanhamento profissional.

Identificar quando uma pessoa está com problemas e precisa de ajuda profissional não é uma tarefa fácil, e quando se trata de crianças, a dificuldade é ainda maior.

Perceber os sinais de que algo não vai bem e que os problemas são de ordem psicológica requer muita observação do mundo infantil.

Há uma série de condutas que podem significar que a criança precisa de ajuda para lidar com as emoções e sentimentos.

Muitas vezes, por não serem corretamente diagnosticados, prejuízos físicos e emocionais podem aparecer em outras etapas da vida.

Algumas queixas são mais comuns do que se imagina e retratam as angústias de pais de crianças e adolescentes com transtornos psicológicos.

Entre os mais comuns estão o diagnóstico de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtornos Alimentares, Transtorno Bipolar e os Transtornos de Ansiedade (TAs).

Nesse período, a linha que separa os diferentes distúrbios é mais tênue do que na idade adulta, levando os pais a terem dificuldade em perceber o problema que o filho enfrenta.

Uma criança depressiva, por exemplo, além de ficar triste e chorosa, pode ser extremamente irritada.

Já aquelas que sofrem de transtornos alimentares podem, além de se recusar a comer, mudar constantemente de humor e ter momentos de agressividade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a incidência mundial desses distúrbios na infância e na adolescência chega a 20%, podendo levar a quadros mais graves, como o suicídio.

Crianças com transtorno de ansiedade sofrem consequências no corpo e no comportamento

Conforme a Associação Americana de Transtornos de Ansiedade, entre 9% e 15% da população de 5 a 16 anos sofre do distúrbio, que é caracterizado por um conjunto de reações físicas, psicológicas e comportamentais que antecedem uma situação real ou imaginária.

Crises de ansiedade são reações desproporcionais das crianças em relação ao estímulo que recebem, seja ele qual for.

As crises podem se caracterizar por um sentimento de medo e apreensão, marcado por um período de tensão ou desconforto diante de algum evento visto como perigoso, mesmo que não ofereça risco real.

Quando exageradas, podem aparecer na forma de taquicardia, tensão muscular, tremores, falta de ar, desmaios e problemas intestinais.

Os sintomas de um transtorno de ansiedade podem surgir subitamente ou de forma gradual. Possivelmente, por isso, passam despercebidos por muitos pais.

É preciso conhecer os filhos e ficar atento às mudanças, sejam elas físicas ou comportamentais.

As formas mais comuns de manifestar a ansiedade são por meio de preocupações recorrentes e difíceis de controlar.

Junto, podem aparecer inquietação, cansaço fácil, dificuldade em se concentrar, irritabilidade e problemas para dormir ou manter o sono.

A infância é um período de muitas mudanças, e o grau de ansiedade passa por oscilações conforme a criança cresce.

Seja no início do ano escolar, nas alterações de rotina ou nas mudanças no ambiente familiar, os estímulos externos geram novas sensações e emoções.

Há dois tipos de transtorno de ansiedade mais comuns entre os 5 e 16 anos: o Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG) e o Transtorno de Ansiedade e Separação, conceituados abaixo.

Transtorno de Ansiedade Generalizada

O TAG caracteriza-se pelas preocupações excessivas e incontroláveis sobre diferentes aspectos da vida.

Apesar de preocupações serem uma manifestação de ansiedade bastante comum e fazerem parte da experiência humana, pacientes diagnosticados com TAG apresentam intensificação e prolongamento deste estado ansioso, sem que haja a interrupção deste processo.

Crianças e adolescentes com TAG são como “mini adultos” em função da preocupação em excesso com compromissos, da rígida aderência às regras, ou por suas perguntas referentes aos perigos inerentes às situações.

Estas preocupações dificultam o diagnóstico precoce do transtorno, porque adultos tendem a valorizar este tipo de preocupação, confundindo assim a presença dos sintomas com senso de responsabilidade.

Crianças e adolescentes com TAG podem ter preocupações consigo ou com os outros e sobre diferentes domínios, como por exemplo: perfeccionismo; pontualidade; saúde e segurança; eventos catastróficos mundiais.

Crianças e adolescentes com TAG frequentemente subestimam a própria capacidade de lidar com as situações cotidianas, em especial as que envolvem a avaliação de terceiros.

Por apresentar uma autocrítica exagerada, são perfeccionistas, capazes de cometerem distorções cognitivas que tornam um pequeno erro um fracasso enorme.

Como consequência das ideias perfeccionistas, estas crianças tendem a faltar seus compromissos com maior frequência ou até mesmo abandonar suas atividades diárias.

Outras características são: a necessidade constante de reasseguramento, excesso de autoconsciência e preocupação com comportamento no passado.

Rigidez com relação ao cumprimento de regras ou evitação de situações nas quais poderia haver a exposição ao julgamento dos outros são as principais consequências destes comportamentos.

Finalmente, crianças e adolescentes com TAG têm uma tendência a superestimar o perigo, prevendo situações catastróficas.

Transtorno de Ansiedade de Separação

O transtorno de ansiedade de separação caracteriza-se pela ansiedade excessiva em função do afastamento de casa ou de figuras de vinculação, como exemplo: os primeiros dias de aula.

A reação emocional exagerada diante do afastamento dos pais também pode fazer parte do comportamento de crianças pequenas.

Este comportamento pode ser frequentemente observado em crianças até a idade pré-escolar, devido à insegurança gerada pela ausência dos cuidadores.

A ansiedade de separação se configura como um transtorno quando se torna inadequada para o grau de desenvolvimento ou quando interfere no funcionamento da vida diária da criança.

Frequentemente, observa-se a intensificação destes sintomas sob a forma de perseguição aos pais dentro de casa, dificuldades para dormir ou ficar em casa sozinho e recusa para ir à escola ou para sair desacompanhado, nos momentos que antecedem a saída dos pais para o trabalho ou o horário da escola.

Quando os pais saem de casa, frequentemente essas crianças ou adolescentes sentem a necessidade de saber onde eles estão ou de permanecer em contato, sendo muito comum o uso do telefone para este fim.

Algumas crianças ou adolescentes se queixam de saudade extrema quando estão longe de casa, podendo vivenciar sintomas somáticos em função do desconforto.

Dentre os sintomas somáticos mais usuais estão: dor de cabeça, de estômago e náuseas.

Estes sintomas são comuns tanto no momento da separação quanto na antecipação do afastamento.

A evolução do transtorno costuma oscilar entre momentos de ansiedade em menor grau e crônicos, com períodos de exacerbação em grau agudo.

Frequentemente, estes momentos de pico são acompanhados por alterações importantes na vida da criança ou do adolescente, tais como mudança de escola ou doença na família.

A ciência ainda não consegue explicar por que algumas crianças desenvolvem o problema, mas alguns fatores parecem fundamentais.

O desenvolvimento dos transtornos ansiosos, é resultado da interação de múltiplos fatores como a herança genética, o temperamento do indivíduo, o tipo de relação e o estilo de criação pelos pais, além das experiências vivenciadas pela criança.

De acordo com alguns estudos, o quadro também está ligado ao excesso de estímulos que as crianças recebem atualmente.

Além disso, também estão submetidas a uma maior pressão social e emocional tanto da família quanto da escola.

Esses itens podem significar apenas indícios de que há problemas emocionais a serem tratados.

Crianças bem adaptadas socialmente e equilibradas emocionalmente não costumam apresentar a combinação de dois ou mais aspectos citados.

Se você está observando esses comportamentos e, mesmo assim, não tem certeza se é ou não um quadro de alterações psicológicas, procure um psicólogo para um diagnóstico mais preciso.

Dra. Liana Michelon
Psicóloga, Psicopedagoga e especialista em Terapia Analítico Comportamental da Amare Pediatria Especializada – CRP/PR: 08/10787

REFERÊNCIAS

Bögels, S. M. & Zigterman, D. (2000). Dysfunctional cognitions in children with social phobia, separation anxiety disorder, and generalized anxiety disorder. Journal of Abnormal Child Psychology, 28 (2), 205-211.
Kendall, P. C.; Krain, A. & Treadwell, K. (1999). Generalized anxiety disorders.Em: R. T. Ammerman; M. Hersen & C. G. Last. (Orgs), Handbook of prescriptive treatments for children and adolescents, 2ed. (pp.155-171). Needham Heights: Allyn & Bacon.
Francis, G.; Last, C. G. & Strauss, C. C. (1987). Expression of separation anxiety disorder: The roles of age and gender. Child Psychiatry and Human Development, 18, 82-89.
Suveg, C.; Aschenbrand, M. A. & Kendall, P. C. (2005). Separation Anxiety Disorder, Panic Disorder and School Refusal. Child & Adolescent Psychiatric Clinics of North America, 14, 773-795.

POR Liana Michelon Martins